Terça-feira, Maio 23, 2006

Mãe, cadê o lápis cor da pele?

Mãe, cadê o lápis cor da pele?

Quando falamos em palestras e cursos que nossa tarefa de lutar contra o preconceito racial é uma luta cotidiana, isso não se constitui como um recurso linguístico. De fato extinguir do nosso dia a dia falas e ações que mesmo não intencionais disseminam o preconceito contra a população negra é uma luta diária. Algumas vezes as ações subalternizam o sujeito negro, como no caso da menina Luara de 5 anos em que o seu grupo lhe escolhe - única menina negra da sala - para interpretar a cozinheira da poesia A Porta do Vinicíus, naturalizando um lugar de despretígio para este segmento da população. Noutras torna o negro invisível, tomando o branco como padrão de humanidade. Estas graves ações não são realizadas de modo premeditado e agressivo, ao contrário, ocorrem muitas vezes num clima de alegria e descontração presentes nas aulas de educação infantil, o que as tornam mais arrasadoras do ponto de vista da sua eficácia, pois atuam de modo implacável na constituição dos sujetos negros e brancos. Para exemplificar o que digo tenho buscado no meu cotidiano ou no de amigos bem próximos situações exemplares e é uma destas que vou contar.

Dias destes, numa noite em que mãe ajuda filho a fazer tarefa, estava uma mãe negra a ajudar seu filho, moreno, segundo ele mesmo, já que é filho de pai branco e em suas várias conversas com a mãe sobre as definições de cor/raça ele insiste em "guardar" a parte do pai no seu processo de identidade. Esta criança tem 4 anos, sabe que sua mãe é negra, conversa com ela sobre isto e por mais que ela queira que ele se identifique como negro ele a contesta e insiste que é moreno, pois é mistura da cor do pai com a dela. Ela como boa educadora que é sabe que os pequenos possuem autonomia de pensamento, são sujeitos ativos e elaboram seus próprios pensamentos a partir da interação social, respeita, ouve suas argumentações, contra-argumenta e assim seguem...
Voltemos àquela noite da tarefa. Estavam pintado ( ele faz a sua tarefa e passa para ela fazer uma igualzinha a dele) algumas pessoas que vieram desenhadas na tarefa, quando ele pede _ Mamãe, cadê o lápis cor de pele? Ela muito calma e atenta, educadora sempre, responde-lhe. _Cor de qual pele? Da minha, da sua ou a do papai?. Ele sério lhe diz: _ Mamãe, o lápis cor de pele. Ela mais uma vez tenta fazê-lo perceber que não existe um lápis cor de pele e repete: _ Mas de qual pele você está falando? Ele já meio irritado responde: _ Mamãe, você não sabe qual lápis é cor de pele! Ela munida de muita paciência pois sabe que erroneamente algumas pessoas nomeam o lápis cor salmão (meio rosa-amarelado) como lápis cor da pele. Responde-lhe: _Não querido, eu não sei a qual cor você está se referindo, pois há muitas cores de pele. Veja a minha, qual lápis você usaria para pintar a cor da minha pele?

Ele rapidamente encontra um marrom escuro entre os muitos lápis-de-cor espalhados pela mesa e mostra a ela. Em seguida ela pergunta. _ E para pintar a sua cor, qual você usaria? O mesmo que usou para mim?( mais uma vez ela quer puxar a brasa para a sua sardinha). Ele responde com a cabeça que não e procura um tom mais claro de marrom e explica pacientemente para ela. _ Mamãe a minha pele é mais clara que a sua, você esqueceu que eu sou um pouco branco e um pouco negro? Ai...ai... é claro que ela não tinha esquecido, mas finge e diz-lhe: _ É verdade meu filho eu esqueci.

Em seguida ela lhe pergunta: _ E o papai, qual lápis você usaria para pintar a cor dele? E mais uma vez ele volta seus olhinhos atentos para o mar de lápis, procura aqui, procura ali. Levanta papel aqui e acolá e enfim ele encontra. _Aqui, mamãe achei o lápis cor de pele! É esse que eu usaria para pintar o papai? É este que a minha professora disse que chama "lápis-cor-da-pele". A mãe que sabe o quanto aquele assunto é importante, pergunta-lhe: _ E você acha que é este o nome correto? Ele, como qualquer outra criança, é esperto o suficiente para saber que depois de todo aquele exercício sua mãe não concorda com a definição "lápis-cor-da-pele", responde: _ AH! É claro que não, tem lápis cor da sua pele, da minha e da do papai.
_Isso, mesmo! Existem várias cores de pele e para cada uma usa-se uma cor de lápis diferente, por isso não existe um "lápis-cor-da-pele", depende de quem você quer pintar. A mãe acha que por ora é o suficiente e deixa para um outro momento o prolongamento deste papo. _ E aí vamos terminar a tarefa?

Lucimar Rosa Dias - Pedagoga, mestre em Educação e Relações Raciais e Doutoranda na FE-USP/ MAIO -2006


Olá, como disse a vocês estamos na luta contra a discriminação racial e também contra todas os outros tipos. Eu quero um mundo melhor. E você?

sobre o meu trabalho

No dia 05.05. estive em BH, ministrando uma oficina para professoras da Educação Infantil sobre metodologias de combate ao racismo na sala de aula. A discussão foi muito boa. As professoras relataram várias situações nas quais a cor da pele e o tipo de cabelo ainda são motivos de constrangimentos. Crianças Negras nas mais tenra idade estão tendo que conjugar entre os muitos acontecimentos desta faixa etária a questão de como lidar com a cor de suas peles e os cabelos que possuem. Apelidos são a forma mais comum de constrangimentos que elas passam, mas pasmem, não são apenas alunos que se utilizam deste artíficio, professores também sem incluem neste grupo. Certamente há muita coisa por fazer e poder reunir-me com professoras para tratar do assunto foi uma coisa muito boa.

Quem sou eu...

Publicações

  • Geração XXI: vozes de quem vive essa história. In: SILVA, Cidinha. Ações Afirmativas em Educação:experiências brasileiras. São Paulo: Summus, 2003
  • “Quantos passos forma dados? A questão de raça nas leis educacionais. Da LDB de 1961 a Lei 10.639/03. Revista On-line “Espaço Acadêmico” www.espacoacademico.com.br/038/38cidas.htm, n.38, junho, 2004.
  • Quantos passos já foram dados? A questão de raça nas leis educacionais - da LDB de 1961 à Lei 10.639/03. In: ROMÃO, Jeruse (org.) Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidades: Brasília, 2005;
  • O desafio pedagógico de formar professores para promover a igualdade racial na escola.www.mulheresnegras.org/doc/ texto_para_site_mulheres_negras.rtf, acessado em 1/07/2006
  • Formação de Professores para o combate ao racismo. A experiência do GRUPO TEZ -Trabalhos e Estudos Zumbi, co-autora. Cadernos de diálogos pedagógicos. Combatendo a intolerância e promovendo a igualdade racial na educação sul-matogrossense, pág. 45-49, Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso do Sul, 2006.
  • Mãe, cadê o lápis cor da pele?, Por: Lucimar Rosa Dias - 30/05/2006. http://www.afropress.com
  • Questões sobre a educação na África e a educação anti-racista brasileira: reflexões. Revista Espaço Acadêmico, n.60, maio, 2006, http://www.espacocademico.com.br/rea_autores.htm

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