Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
Olá, para quem ainda não leu e adora uma boa literatura segue uma dica para presentear a si mesmo(a)! O livro Cada tridente em seu lugar e outras crônicas de Cidinha da Silva, edição Instituto Kuanza, dá para pedir pelo site submarino. É uma delícia!!!
As coisas (im)percetíveis que mantém o preconceito de cada dia
As coisas (im) percetíveis que mantém o preconceito de cada dia
Num fim de tarde do mês de novembro de 2005, uma senhora foi à escola de seu filho assistir a um sarau. Os pais, na maioria mães, iam chegando aos poucos e esperavam com uma certa ansiedade, revelada nos olhares para os relógios, às 17H. Ela, diferentemente de todos os dias, quando vai buscá-lo, quis "puxar conversa" com outras mães na tentativa de fazer o tempo passar mais rápido. Comentaram a expectativa de ver as crianças recitando, contaram peripécias de seus filhos, que em geral, interessam apenas a elas mesmas, falarams do tempo etc. Enfim, dessas coisas possíveis de serem ditas nesses breves encontros em que não deseja-se estabelecer relações duradouras. E, assim, o que era apenas um grupo pequeno de pais/mães tornou-se um público de umas cinqüenta pessoas, barulhentas e apressadas. Finalmente, às 17:25, os portões se abriram e todos puderam sentar à espera dos poetinhas. Aos poucos, eles foram chegando, mais barulhentos e apressados que seus pais. Cheios de expectativas também.
Cada poetinha percorria o público à procura da "sua" pessoa mais importante. Quando encontrada, era sorriso. Sabedora disso, a senhora - que já esteve do outro lado como professora -, sentou-se bem à frente. O seu poetinha quando a encontrou, sorriu. Um sorriso largo, daqueles que fazem aparecer em seu rosto, duas "covinhas" que levam todos ao comentário: " Como ele é lindo!".
Começa a apresentação. Concentração total dos pais. Uma apresentação após a outra despertava em todos um misto de prazer e orgulho: Cecília Meireles, Vinicíus de Moraes, José Paulo Paes, entre outros, percorriam os lábios daquela gente pequena. A senhora estava enlevada, muito feliz, até que um dos grupos apresentou a poesia de Vinícius "A Porta". Não há nada errado com o poema. Ele é melódico e bem humorado. Mas ....o que a senhora que era negra assistiu quebrou o enncato daquele momento.
Havia neste grupo de crianças uma única menina negra de nome Luanda, aliás a única menina negra de toda a escola. Começaram: "- Eu abro devagarinho, Pra passar o menininho. E veio um menino. Todos riram das caras engraçadas que faziam ao interpretarem os personagens do poema. Estava divertido. Em seguida: "Eu abro bem com cuidado, Pra passar o namorado." Agora era a vez de uma menina loira de cabelos cacheados. Ela, menina, representava o namorado. "Eu abro bem prazenteira, Pra passar a cozinheira." E quem vem? Se você pensou na menina negra de nome poético, acertou. Ela foi "escolhida" para representar a cozinheira. A cozinheira? Entre tantas crianças, meninos e meninas? A menina negra é a cozinheira...Coincidência? Talvez ?
Mas ao saber desta história fiquei com vontade de recitar em alto e bom som...
" Eu fecho o quarto do racismo,
Fecho a casa do preconceito,
Fecho tudo no mundo ,
que maltrada o povo negro.
Só vou abrir o portão,
prá sair toda a discriminação!"
Lucimar Rosa Dias - 30 de novembro de 2005
Num fim de tarde do mês de novembro de 2005, uma senhora foi à escola de seu filho assistir a um sarau. Os pais, na maioria mães, iam chegando aos poucos e esperavam com uma certa ansiedade, revelada nos olhares para os relógios, às 17H. Ela, diferentemente de todos os dias, quando vai buscá-lo, quis "puxar conversa" com outras mães na tentativa de fazer o tempo passar mais rápido. Comentaram a expectativa de ver as crianças recitando, contaram peripécias de seus filhos, que em geral, interessam apenas a elas mesmas, falarams do tempo etc. Enfim, dessas coisas possíveis de serem ditas nesses breves encontros em que não deseja-se estabelecer relações duradouras. E, assim, o que era apenas um grupo pequeno de pais/mães tornou-se um público de umas cinqüenta pessoas, barulhentas e apressadas. Finalmente, às 17:25, os portões se abriram e todos puderam sentar à espera dos poetinhas. Aos poucos, eles foram chegando, mais barulhentos e apressados que seus pais. Cheios de expectativas também.
Cada poetinha percorria o público à procura da "sua" pessoa mais importante. Quando encontrada, era sorriso. Sabedora disso, a senhora - que já esteve do outro lado como professora -, sentou-se bem à frente. O seu poetinha quando a encontrou, sorriu. Um sorriso largo, daqueles que fazem aparecer em seu rosto, duas "covinhas" que levam todos ao comentário: " Como ele é lindo!".
Começa a apresentação. Concentração total dos pais. Uma apresentação após a outra despertava em todos um misto de prazer e orgulho: Cecília Meireles, Vinicíus de Moraes, José Paulo Paes, entre outros, percorriam os lábios daquela gente pequena. A senhora estava enlevada, muito feliz, até que um dos grupos apresentou a poesia de Vinícius "A Porta". Não há nada errado com o poema. Ele é melódico e bem humorado. Mas ....o que a senhora que era negra assistiu quebrou o enncato daquele momento.
Havia neste grupo de crianças uma única menina negra de nome Luanda, aliás a única menina negra de toda a escola. Começaram: "- Eu abro devagarinho, Pra passar o menininho. E veio um menino. Todos riram das caras engraçadas que faziam ao interpretarem os personagens do poema. Estava divertido. Em seguida: "Eu abro bem com cuidado, Pra passar o namorado." Agora era a vez de uma menina loira de cabelos cacheados. Ela, menina, representava o namorado. "Eu abro bem prazenteira, Pra passar a cozinheira." E quem vem? Se você pensou na menina negra de nome poético, acertou. Ela foi "escolhida" para representar a cozinheira. A cozinheira? Entre tantas crianças, meninos e meninas? A menina negra é a cozinheira...Coincidência? Talvez ?
Mas ao saber desta história fiquei com vontade de recitar em alto e bom som...
" Eu fecho o quarto do racismo,
Fecho a casa do preconceito,
Fecho tudo no mundo ,
que maltrada o povo negro.
Só vou abrir o portão,
prá sair toda a discriminação!"
Lucimar Rosa Dias - 30 de novembro de 2005
Curso com Professores em MS, julho de 2006

Curso para professores que trabalham em quilombos ou com alunos vindos desses locais em Campo Grande - Mato Grosso do Sul. O curso foi muito interessante os professores estavam realmente interessandos em discutir estratégias de combate ao racismo no ensino médio. Espero poder publicar excelentes projetos resultantes desse trabalho.
Assinar:
Postagens (Atom)
Quem sou eu...
Publicações
- Geração XXI: vozes de quem vive essa história. In: SILVA, Cidinha. Ações Afirmativas em Educação:experiências brasileiras. São Paulo: Summus, 2003
- “Quantos passos forma dados? A questão de raça nas leis educacionais. Da LDB de 1961 a Lei 10.639/03. Revista On-line “Espaço Acadêmico” www.espacoacademico.com.br/038/38cidas.htm, n.38, junho, 2004.
- Quantos passos já foram dados? A questão de raça nas leis educacionais - da LDB de 1961 à Lei 10.639/03. In: ROMÃO, Jeruse (org.) Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidades: Brasília, 2005;
- O desafio pedagógico de formar professores para promover a igualdade racial na escola.www.mulheresnegras.org/doc/ texto_para_site_mulheres_negras.rtf, acessado em 1/07/2006
- Formação de Professores para o combate ao racismo. A experiência do GRUPO TEZ -Trabalhos e Estudos Zumbi, co-autora. Cadernos de diálogos pedagógicos. Combatendo a intolerância e promovendo a igualdade racial na educação sul-matogrossense, pág. 45-49, Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso do Sul, 2006.
- Mãe, cadê o lápis cor da pele?, Por: Lucimar Rosa Dias - 30/05/2006. http://www.afropress.com
- Questões sobre a educação na África e a educação anti-racista brasileira: reflexões. Revista Espaço Acadêmico, n.60, maio, 2006, http://www.espacocademico.com.br/rea_autores.htm
