Sábado, Abril 07, 2007

Saiu no USP NOTÍCIAS


Reportagens- 28/03/2007 16:50


educação

Aprendizado étnico-racial ajuda crianças a compreenderem diferenças




Valéria Dias
valdias@usp.br


27/03/2007 19:21

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Agência USP de Notícias

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A partir da análise de dois cursos de formação continuada de professores de primeira infância (0 a 5 anos) para o combate ao racismo, a pedagoga Lucimar Rosa Dias constatou que esse tipo de iniciativa traz resultados positivos para a educação das crianças. “De acordo com o relato das educadoras, a amizade entre os alunos aumentou e eles passaram a considerar todas as diferenças — e não apenas aquelas ligadas à cor da pele — como algo positivo, tendo o aprendizado sobre as questões étnico-raciais ajudado a compreender outras diferenças”, conta.

Esses cursos apresentam um conteúdo específico sobre um tema e o educador, por meio de práticas pedagógicas, colocará isso em prática junto a seus alunos em sala de aula. “O educador pode propor às crianças oficinas de bonecas negras para trabalhar a questão da aparência, ou então faz uma releitura dos contos de fada, como por exemplo, contar a história de uma Rapunzel negra para que os alunos percebam que reis e rainhas também podem ser negros”, explica a pedagoga. “Com isso, são levados a refletir e a questionar a visão inferior / superior que se tem a respeito de pessoas brancas e negras.”


Coragem e valorização das experiências pessoais dos educadores são qualidades importantes


Lucimar pesquisou o tema em seu doutorado, apresentado na Faculdade de Educação (FE) da USP no último dia 20 de março. Ela analisou as experiências de um curso realizado na cidade de Campinas (SP), oferecido pela Secretaria Municipal de Educação, e de um outro, em Campo Grande (MS), da Secretaria de Estado da Educação. "Há cursos de formação continuada com diversos formatos. Os analisados na pesquisa tinham duração de 60 horas", explica. O estudo foi orientado pela professora Denice Barbara Catani, da FE.



Coragem
Lucimar propõe, em sua pesquisa, cinco itens que podem auxiliar na implantação dos programas de formação de professores no combate ao racismo. Ela considera fundamental valorizar as próprias experiências e saberes pessoais dos educadores; uso recursos como filmes, livros e artes plásticas que tragam referências a personalidades negras; não restringir o estudo do tema apenas sob o aspecto da educação e ir buscar embasamento em outras áreas como a sociologia e a antropologia; e trabalhar o assunto constantemente em sala de aula e não apenas em situações especiais — apenas no Dia da Consciência Negra, por exemplo.

Já o último item é ligado a coragem. “Muitos educadores relataram episódios de preconceitos, em que as atividades de combate ao racismo dentro de sala de aula não foram bem recebidas por algumas pessoas da escola, enquanto outros foram questionados sobre a real necessidade de desenvolver essas atividades”, conta. “Isso mostra que ainda hoje é necessário ter muita coragem e empenho para tratar questões étnico-raciais em sala de aula.”


Criação de bonecas negras: reflexão das crianças sobre a questão da aparência


Lei 10639/03
A pedagoga entrevistou 10 educadoras (cinco em Campo Grande e cinco em Campinas) e técnicos responsáveis pelo assunto nas Secretarias de Educação. Além de comparar as duas cidades, a pedagoga fez também um levantamento das experiências ocorridas no Brasil entre 1979 e 2003. “No ano de 1978, com a retomada dos movimentos sociais, aconteceu a reorganização do movimento negro no País”, esclarece. “E, em 2003, houve a aprovação da Lei Federal 10639/03, que modificou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), ao instituir a obrigatoriedade de os sistemas de ensinos municipal, estadual e federal incluírem aulas de estudos das questões étnico-raciais em seus currículos”, completa.

Antes da existência da Lei, vários municípios brasileiros já haviam incluído o tema, como o caso de Salvador (1989), Belo Horizonte (1990), Porto Alegre (1991), Diadema e Belém (1994), São Paulo e Distrito Federal (1996), Criciúma (1997), Teresina (1998), Campo Grande (1999) e Campinas (2000). “Escolhi Campo Grande pelo meu próprio envolvimento na criação dessa política naquela cidade e Campinas por eu ter recebido boas indicações sobre a experiência implantada lá”, conta.

De acordo com Lucimar, em Campinas esse tipo de formação continuada já é uma política pública e oferece um núcleo específico onde os educadores encontram material para trabalhar com o tema. É o Programa MIPID - Memória e Identidade: Promoção da Igualdade na Diversidade. “Esse mesmo apoio institucional não foi verificado em Campo Grande”, conta a pedagoga. “Na capital mato-grossense-do-sul não houve, além do curso, nenhum outro investimento oferecido aos educadores para que trabalhassem o tema em sala de aula”, explica Lucimar. “Mas mesmo assim conseguimos encontrar experiências positivas nas duas cidades”, conclui.

Mais informações: E-mail lucimar_dias@uol.com.br, com Lucimar Rosa Dias

Imagens cedidas pela pesquisadora

Deu no G1 - Dia 05


05/04/2007 - 17h08

Educação étnica para crianças diminui preconceitos
Estudo da USP mostrou que cai uso de apelidos ofensivos.
As crianças também ficaram mais tolerantes às diferenças.
Simone Harnik

Do G1, em São Paulo
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ALTERA O
TAMANHO DA LETRA A-A+A educação infantil até os cinco anos de idade, quando aborda aspectos étnicos, pode diminuir o preconceito das crianças. A constatação foi de uma pesquisa de doutorado da USP, realizada pela pedagoga Lucimar Rosa Dias. Segundo o estudo, as crianças que tiveram atividades falando da igualdade racial, ao longo do tempo, diminuíram o uso de apelidos ofensivos com os colegas e passaram a respeitar mais as diferenças, não só as raciais.




Exposição de bonecas étnicas utilizadas por educadores (Foto: Arquivo Pessoal)A pesquisa foi feita com dez educadores que passaram por um curso de formação para lidar com as diferenças na sala de aula. “É preciso saber como tratar esse assunto com as crianças, porque o imaginário infantil vai sendo construído com as referências que a criança tem. É possível mostrar na literatura, fazer teatro, bonecos. É importante que a criança vivencie isso a partir de formas lúdicas”, afirma Lucimar.

É o que faz a monitora de educação infantil Beatriz Tomaz Ruela, 28. Na escola em Campinas (a 95 km de São Paulo) onde trabalha, ela tenta abordar as diferenças raciais com naturalidade, em histórias infantis que tenham personagens negros. “A modificação das crianças acontece como resultado de um processo longo. A auto-estima melhora, o respeito, elas aprendem a lidar com o outro e com a própria identidade”, diz.

Um problema bastante comum, que foi superado por Beatriz, foi a discriminação das meninas afrodescendentes, por terem cabelos cacheados. “As meninas viram que o cabelo delas é bonito e que podem andar com ele arrumado, se afirmando como negras. Daí, as outras crianças também pararam com as brincadeiras e respeitaram”, conta.

Outra ferramenta utilizada pelos professores da pesquisa, que se mostrou eficiente, foram as bonecas étnicas. “Educadores em diferentes pontos do Brasil usam esse recurso. Se a criança tem apenas um tipo de boneca, começa a pensar que esse é o padrão da humanidade”, diz Lucimar.

“Uma professora relatou que, em uma ocasião, um pai viu a boneca negra com o filho e reclamou. Ele dizia que seu filho não devia brincar de boneca e, muito menos, de boneca negra. A partir disso, a professora teve também de conversar com o pai e com a família, para quebrar o preconceito racial e o estigma de que só meninas brincam de boneca”, lembra.




Para os professores

Os cursos de complementação da formação que tratem de diferenças raciais ou étnicas, de acordo com a pesquisa, mostraram que os professores ficam mais preparados para lidar com a discriminação na escola e até aplicaram os conhecimentos em outras áreas de sua vida. “O professor também melhora seu domínio de métodos e há ainda aqueles que se interessam pelo assunto e acabam estudando mais em cursos de especialização”, diz Lucimar.

Para Lucinéia Crespin Pinho Micaela, 38, que desenvolve a formação com professores de educação infantil na cidade de Sumaré (a 120 km de São Paulo), é muito claro que os educadores tornam-se mais sensíveis após passarem por cursos sobre diferenças étnicas.


“O professor passa a acolher quem foi agredido e utiliza a situação em alguma atividade na sala de aula. Quando a gente trabalha a igualdade racial, as crianças percebem que pele, peso, sexo não qualificam as pessoas”, afirma.

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Publicações

  • Geração XXI: vozes de quem vive essa história. In: SILVA, Cidinha. Ações Afirmativas em Educação:experiências brasileiras. São Paulo: Summus, 2003
  • “Quantos passos forma dados? A questão de raça nas leis educacionais. Da LDB de 1961 a Lei 10.639/03. Revista On-line “Espaço Acadêmico” www.espacoacademico.com.br/038/38cidas.htm, n.38, junho, 2004.
  • Quantos passos já foram dados? A questão de raça nas leis educacionais - da LDB de 1961 à Lei 10.639/03. In: ROMÃO, Jeruse (org.) Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidades: Brasília, 2005;
  • O desafio pedagógico de formar professores para promover a igualdade racial na escola.www.mulheresnegras.org/doc/ texto_para_site_mulheres_negras.rtf, acessado em 1/07/2006
  • Formação de Professores para o combate ao racismo. A experiência do GRUPO TEZ -Trabalhos e Estudos Zumbi, co-autora. Cadernos de diálogos pedagógicos. Combatendo a intolerância e promovendo a igualdade racial na educação sul-matogrossense, pág. 45-49, Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso do Sul, 2006.
  • Mãe, cadê o lápis cor da pele?, Por: Lucimar Rosa Dias - 30/05/2006. http://www.afropress.com
  • Questões sobre a educação na África e a educação anti-racista brasileira: reflexões. Revista Espaço Acadêmico, n.60, maio, 2006, http://www.espacocademico.com.br/rea_autores.htm

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