Sou fã da Sueli Carneiro e por isso não poderia deixar de incluir aqui a bela contribuição dessa mulher para a reflexão do Caso Matilde. Quanto ao Martvs, durou pouco a esperança.
Sueli Carneiro + Força Negra do PT sobre o episódio do cartão de Matilde
Pesos e medidas
Fonte: Correio Braziliense
Sueli CarneiroDoutora em filosofia da educação, é diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra
Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo. A ministra não é chamada pelo presidente da República, de quem seria pessoa de confiança, para se explicar. É sabatinada com direito a muitos “pitos” e aconselhamento para se demitir por outros três ministros supostamente equivalentes a ela. Evidencia-se aí o que parece ser o caráter simbólico do título de ministra. Demitida, é exposta numa patética coletiva de imprensa, jogada aos leões, sem a presença de nenhuma das figuras de expressão do governo ou de seu partido para emprestar-lhe “solidariedade” como houve em outros casos similares. Na mídia, proliferam charges que extrapolaram, em muito, o objeto central das irregularidades de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári, como se esses traços de identidade falassem por si e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo. Foucault já explicou como se dá esse processo que ele nomeou de “dobrar o delito” acoplando-lhe “uma série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (...) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito”. O resultado dessa operação é que a falha cometida se torna a marca, o sinal de uma suposta imperfeição congênita de uma pessoa ou, mais ainda, de seu grupo social. É como se estivesse inscrito em sua natureza, devendo, por isso, ser objeto de humilhação pública para servir de alerta aos que se esquecem dessa ausência “natural” de qualidade e os elevam a posições para as quais não estariam talhados. Presta-se também como ameaça aos outros, do mesmo grupo inferiorizado, que porventura ousem desejar atingir os mesmos postos. São formas de punição preventivas e educativas em que a estigmatização e a humilhação funcionam para reafirmar a incapacidade e despreparo para assumir função diretiva. Em outras palavras, a necessidade de controle social e tutela desses segmentos sociais. Adicional e imediatamente promoveu-se a confusão entre a pessoa da ministra e sua pasta. Passaram a pedir não apenas a sua cabeça mas também a extinção do órgão que dirigia. Alguém imagina pedir-se a extinção de qualquer outro ministério ou secretaria especial porque seu titular cometeu um desvio de conduta? Veiculou-se na imprensa que o presidente Lula estaria “particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria da Igualdade Racial, antiga reivindicação do movimento negro, e foi criticado pela decisão de criar mais uma pasta. Para o presidente a atitude de Matilde Ribeiro dá agora argumentos aos adversários para quem a secretaria não tem função”. Ora presidente, a disfunção da então ministra não pode confundir-se com a função da secretaria como desejam os adversários. A contaminação dos atos da ministra sobre a pasta que estava sob seu comando pode ser justificativa para ceder às pressões daqueles que, dentro e fora do governo, operam para a desestabilização daquele órgão; aqueles que propagam que não somos racistas no Brasil e, portanto, negam as mazelas sociais que o racismo produz e conseqüentemente esvaziam de sentido essa secretaria. Enquanto Matilde Ribeiro é convidada a se demitir, outros se tornam ministros ou assumem mandatos parlamentares com suspeitas muito graves. Portanto, há discriminação quando as regras não se aplicam igualmente a todos, ou melhor, no fato de que alguns devem ser exemplarmente punidos e outros não. Há racismo na associação entre a negritude da ministra e seus atos. Há racismo no aproveitamento político de falha pessoal de uma gestora pública para a desqualificação da pasta que ela dirigia. Há racismo na utilização das irregularidades cometidas para negar a existência do problema racial e da necessidade de que o seu combate seja objeto de políticas públicas. A agenda de combate ao racismo e promoção da igualdade racial permanece como compromisso do governo no plano nacional e internacional, gostem ou não gostem os detratores. O presidente Lula da Silva precisa estar atento para que o caso de Matilde Ribeiro não seja usado, indevidamente, como o álibi perfeito para o abandono e negação desses compromissos. A crise na Seppir é também oportunidade de dotá-la das condições políticas e materiais necessárias para estar à altura desses compromissos — sobretudo o de transversalizar o tema da promoção da igualdade racial nas diversas áreas da administração pública.
Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008
Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
Mais uma mulher negra...
Não dá para deixar de comentar o que ocorreu com a ex-ministra Matilde. Acusada de usar de modo indevido o cartão "mágico". Matilde, foi sumariamente condenada culpada e convidada a se retirar do governo após as denúncias na mídia.Tudo indica que realmente os gastos não eram apropriados ao que destina o cartão e isso não podemos aprovar venha de onde vier, se o ministro é negro ou é branco, deve pagar pelo erro. O que me estarrece desde a história da Benedita ( e olha que não morro de amores por ela) é a atitude dos dirigentes petistas que deserdar tão facilmente mulheres como Matilde e Benedita, que sempre foram fiéis a estrela, trabalharam duríssimo para construir esse partido e nada disso resulta em uma ação solidária da cúpula. Num piscar de olhos sem nenhuma solidariedade o PT as deixa para serem comidas pelas hienas racistas que pacientemente esperam oportunidades como essa. Eu sinto muito companheira Matilde pelo que está passando e sinto mais ainda ter investido tanto tempo da minha vida num partido que se esquece facilmente de seus construtores, principalmente, se esses são mulheres e negras. Esperemos que Martvs, outro mosqueteiro que sonha e tenta fazer do PT um partido que construa uma sociedade menos racista tenha mais sorte. Ele tem a vantagem de ser homem, mas não deve se esquecer jamais de que sua identidade racial o põe em risco. A ver.
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- Geração XXI: vozes de quem vive essa história. In: SILVA, Cidinha. Ações Afirmativas em Educação:experiências brasileiras. São Paulo: Summus, 2003
- “Quantos passos forma dados? A questão de raça nas leis educacionais. Da LDB de 1961 a Lei 10.639/03. Revista On-line “Espaço Acadêmico” www.espacoacademico.com.br/038/38cidas.htm, n.38, junho, 2004.
- Quantos passos já foram dados? A questão de raça nas leis educacionais - da LDB de 1961 à Lei 10.639/03. In: ROMÃO, Jeruse (org.) Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidades: Brasília, 2005;
- O desafio pedagógico de formar professores para promover a igualdade racial na escola.www.mulheresnegras.org/doc/ texto_para_site_mulheres_negras.rtf, acessado em 1/07/2006
- Formação de Professores para o combate ao racismo. A experiência do GRUPO TEZ -Trabalhos e Estudos Zumbi, co-autora. Cadernos de diálogos pedagógicos. Combatendo a intolerância e promovendo a igualdade racial na educação sul-matogrossense, pág. 45-49, Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso do Sul, 2006.
- Mãe, cadê o lápis cor da pele?, Por: Lucimar Rosa Dias - 30/05/2006. http://www.afropress.com
- Questões sobre a educação na África e a educação anti-racista brasileira: reflexões. Revista Espaço Acadêmico, n.60, maio, 2006, http://www.espacocademico.com.br/rea_autores.htm
